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Não temas, filho! – Ezequiel 2.6

“Tu, ó filho do homem, não os temas, nem temas as suas palavras, ainda que haja sarças e espinhos para contigo, e tu habites com escorpiões; não temas as suas palavras, nem te assustes com o rosto deles, porque são casa rebelde”. Ezequiel 2.6

Contexto: O verso de hoje encontra-se na divisão do livro que os estudiosos chamam de “comissionamento do profeta”. Seu nome não poderia ter uma conotação mais profética, pois significa: Deus fortalece ou fortalecerá. Ele começou seu ministério antes da destruição de Jerusalém, no quinto ano do exílio inicial, profetizando cerca de 20 anos. “Enquanto Jeremias profetizava a destruição de Jerusalém na Palestina, Ezequiel, seu contemporâneo mais jovem, anunciava em Babilônia o mesmo destino da cidade apóstata” (1). “Durante os primeiros seis anos, sua mensagem foi predominantemente de desastre. A ordem estabelecida em Judá e Jerusalém estava condenada: os exilados precisavam reconhecer isso e não depositar sua confiança em uma reversão repentina de sua sorte e em um retorno prematuro para casa. Mas, depois que Jerusalém foi tomada e o seu templo destruído pelas forças babilônicas, sua palavra tornou-se uma mensagem de restauração” (2). Diante da repetição da parte de Deus para que Ezequiel não temesse o povo que não queria ouvir Sua mensagem, podemos aprender que mesmo sendo ultrajados e ouvindo toda sorte de impropérios, não podemos nos omitir de proclamar a verdade.

Por que não temer? 1 Porque você foi designado embaixador a uma humanidade decaída e rebelde; 2 porque você foi ordenado a proclamar e discipular os convertidos e não convertê-los.

Aplicação: O povo escolhido do Senhor hoje é a Sua Igreja (3). Como consequência desta analogia, o povo não escolhido, a nação não santa e que não é da propriedade de Deus consiste nos não cristãos – seja dentro ou fora das denominações eclesiásticas. Junto a esse povo escolhido (Igreja) há pessoas que assim como Israel são “mais rebeldes que as nações” (4); mais rebeldes que o povo que gostam de denominar como ímpios. É um povo que foi chamado do caminho das trevas para a luz de Cristo; para abandonar o caminho de morte e guardar-se da corrupção humana. “Todavia, não só andastes nos seus caminhos, nem só fizeste segundo as suas abominações; mas como se isso fora mui pouco, ainda te corrompeste mais do que elas, em todos os teus caminhos” (5). Da mesma forma que os judeus imitavam os povos pagãos a Igreja não só têm imitado, mas tem sido pior do que o mundo em muitos aspectos, tornando o estado de muitos membros piores que o primeiro.

Indiferente aos “moveres” duvidáveis da heterodoxia neopentecostal, tão em voga; o movimento profético, como encontrado no Antigo Testamento, finalizou em João Batista (6). Na atual dispensação da Graça temos o dom espiritual de profecia, que pode ocorrer quando o Espírito Santo quiser (pois não depende da vontade humana), mas difere do profetismo integral do AT. Mas, uma das características mais importantes do modelo veterotestamentário encontra-se na pregação da Palavra, a saber, proclamar a vontade de Deus já revelada pela Bíblia e denunciar o pecado do povo.

Diferente das “celebridades” dos guetos gospels, um verdadeiro pregador, assim como um profeta antigo, deve ir ao púlpito não para “abençoar o povo”, antes, para desmascarar o pecado, anunciar a condenação da Lei, oferecer um caminho melhor, orientar aos que o Santo Espírito trouxe ao arrependimento e fortalecer os convertidos olhando sempre à frente, para o Senhor, que nos receberá em Seus braços.

A salvação de um homem, o maior milagre, a maior benção que alguém possa anelar tanto para si, como convidar outrem, não existe em ambientes de auto-ajuda, em meio a palestras motivacionais recheadas por “sete passos para ser feliz”; ou em conversas frívolas, e em bate papos onde um filho de Deus se omite por medo ou vergonha. Mas onde estão os homens que podem alertar o ser humano sobre sua deplorável situação? Oh Senhor, por este motivo tarda o Teu avivamento, e na ausência deste, o paganismo se infiltra em Tua Igreja, com moveres incendiados com fogo estranho! Perdoa-nos por negligência omissão! Assim como Israel, cristãos professos de lábios, porém distantes de coração, aproximam-se dia a dia da destruição que não tarda!

Faço deste devocional um grito de alerta a todo cristão verdadeiro: Pregue a Palavra! (7). Você não precisa ser um pregador profissional para compartilhar o Evangelho puro e verdadeiro. Você não precisa de um cargo para como um profeta denunciar o que tem enojado ao Senhor. Você não precisa ser um Lutero ou Calvino para clamar e proclamar um retorno a verdade do Evangelho. Aliás, o calar-se é ser conivente com o erro, tornando-o culpado do mesmo. Lembre-se do que Deus, através de Ezequiel, alertou sobre o atalaia que não avisasse do perigo seria responsável pelo sangue do que morresse em iniquidade (8).

A raça humana não quer Deus. Apenas Seus benefícios, não se enganem. Assim como Deus odeia o pecado, o homem natural ama a si mesmo e em atitude de orgulho afronta a Deus, odiando tudo o que é dEle. O motivo é que a santidade de Deus incomoda. Bem como a exclusividade em confiança, louvor e glória exigida pelo Criador. A boa Lei de Deus denuncia o orgulho e a arrogância nata do homem. Se não fora a misericórdia de Deus o homem estaria condenado eternamente à separação total de Deus – a segunda morte; pois este não se achegaria a Deus sozinho.

Jesus fez a reconciliação de Deus com o homem (e não o contrário); deixando-nos parte deste ministério de reconciliação para que o proclamemos (9). Mas, tanto o incrédulo convicto, quanto o joio semeado em meio a Igreja mantém seus semblantes duros, seus corações altivos e suas mentes obstinadas (10).

Cabe a nós, nos atermos ao estudo diligente das Escrituras e, em amor, proclamar a gloriosa salvação obtida por Cristo e o pesado julgamento de Deus destinado ao incrédulo no Grande Dia. Com isto, a admoestação e correção dos desvios do povo fazem-se necessário. Urge que prestemos atenção às palavras do bispo Ryle: “Em uma época de ignorância profunda em alguns círculos cristãos e de ensinos falsos em outros, estou convencido de que é de importância fundamental que tenhamos ideias claras sobre todos os assuntos debatidos na Cristianismo” (11). Ryle faleceu em 1900, sua preocupação não!

Da mesma forma que o Ezequiel alertava o povo de Deus, o mesmo faço: cuidado! Muitos líderes, aparentes cristãos devotos e piedosos serão rejeitados no Último Dia, não porque falharam ou não foram bons o suficiente, mas porque nunca conheceram de fato o Senhor em consequência de nunca terem sido conhecidos por Ele. E este é de fato o erro deles: crêem e fazem crer que apenas Deus não é o suficiente, aprovam e incentivam a idolatria em todos os âmbitos, como na época de Ezequiel. Cuide para não ser arrastado por eles em suas transgressões.

São estes que fazem o povo crer que devem merecer a salvação. Buscam e vendem “meios de contato” para uma fé espúria, mantida por muletas idólatras e pagãs, que não quer, nem pode se dirigir a Deus. Confiam e fazem confiar em si mesmos e em deuses fabricados (até o “cristo” destes difere do Cristo revelado pelo Pai nas Escrituras); vivendo em rebelião contra Deus, Sua verdade e Seus servos. Não se intimide. Por mais poderosos que eles parecem ser, Deus é que importa ser temido e agradado. Busque agradá-Lo e não a homens. Que possam dizer de você: “hão de saber (…) que esteve no meio deles um profeta” (12).

Certamente ao advogar uma verdade pura e simples, encontraremos a contrariedade de profissionais graúdos da fé. Além de atrair o ódio do homem não regenerado, atrairemos também o ódio do homem regenerado que pareça piedoso, ou tenha um título eclesiástico. Veja a resistência encontrada pelo próprio Filho de Deus. Que não intencionemos sermos melhores sucedidos do que Ele foi!

Desidério Erasmo, em seu ensaio retórico cômico intitulado Elogio da Loucura, parece antever a corrupção atual da liderança eclesiástica quando escreve: “Me admira ainda mais a delicadeza das orelhas de hoje, que só conseguem suportar títulos solenes. Em alguns, pelo contrário, encontras uma religião tão distorcida que estão mais dispostos a perdoar as mais graves ofensas contra Cristo do que a menor ironia (…) sobretudo quando entram em jogo (…) os seus interesses particulares” (13).

Não se engane! Quando você perceber o erro e tentar orientar e alertar, ainda que com o mais sublime amor – os auto-proclamados irmãos irão pedir a sua cabeça. Ezequiel foi alertado por Deus sobre os dias maus: “ainda que o cerquem espinheiros e você viva entre escorpiões: uma descrição metafórica de sua situação desconfortável ao profetizar a um povo que preferia não ouvi-lo” (14).

Não tema a casa rebelde. Mantenha-se firme a verdade e a missão de proclamá-la. Busque cada vez mais uma comunhão plena com o Senhor. Busque-O em orações e na Sua Palavra, pois “ninguém consegue resistir a uma contínua oposição de seus semelhantes a não ser que sua força seja renovada, como foi a de Ezequiel, comendo aquilo que deus dá – verso 2.8” (15). Não se envergonhe, nem desanime. Não retroceda nem ouça o inimigo. Apenas confie no Senhor e Lhe obedeça.

Lembre-se: Israel esqueceu quem era o Seu Deus, mas Deus não esqueceu quem era o Seu povo. Houve um remanescente. Sempre há! Fomos chamados a expor a verdade, o pecado e a graça advinda do beneplácito de Deus; não a convencer. Não possuímos esse poder, função que pertence ao Espírito Santo (16). Pregue, não se omita. Denuncie. Não ouça os que se acovardam atrás de uma exegese mambembe sobre “tocar no ungido”. O Novo Testamento revela apenas um Ungido – Cristo Jesus. E toda a força contrária, seja leiga, pagã, eclesiástica ou satânica deve ser combatida. Como alguém crerá na verdade se ninguém proclamá-la? (17).

Não tema quem se esconde atrás de obras, de falsa piedade ou de uma “unção” falaciosa. A Bíblia é nossa única regra de fé, e se alguém defende partes dela – e seu ensino não se sustenta por ela toda, deve ser rejeitado. Mas use do amor de Jesus, pois o povo eleito, ainda que se afastando por pouco tempo, vai arrepender-se e retornar pela ação do Santo Espírito – através da sua e da minha pregação!

Referências:

(1) Manual Bíblico Unger – Merril F. Unger – Vida Nova, p. 288;

(2) Comentário Bíblico NVI – Antigo e Novo Testamento – F. F. Bruce – Vida Acadêmica, p. 1119;

(3) 1Pedro 2.9;

(4) Ezequiel 5.7;

(5) Idem 16.47;

(6) Mateus 11.13;

(7) 2Timóteo 4.2;

(8) Ezequiel 3.17-21 e 33.1-9;

(9) 2Coríntios 5.18-19;

(10) Ezequiel 2.4;

(11) Adoração – John Charles Ryle – Fiel, p. 8;

(12) Ezequiel 2.5;

(13) Elogio da Loucura – Desidério Erasmo – Martin Claret, p. 15;

(14) Comentário NVI – Bruce, p. 1128;

(15) Comentário Bíblico Devocional do Velho Testamento – F B Meyer – Betânia, p. 387;

(16) João 16.8-9;

Retirado do site www.formulados.com.br 01/02/2011

1 year ago
Posted 1 year ago on March 01, 2011
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